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Saidinha da casca

O blog pessoal de uma aprendiz da vida. Espaço de partilha de devaneios, teorias sensacionalistas, gostos, ideias, curiosidades e opiniões pertinentes sobre tudo, nada e mais um pouco.

Saidinha da casca

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Uma lufada de ar fresco

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Não é à toa que dizem que no meio é que está a virtude, na quarta-feira tive a melhor notícia dos últimos meses, quem sabe, até anos, fui colocada no mestrado e na universidade que queria. E logo à primeira tentativa, quando já estava a antever rejeição e novas candidaturas para outras instituições. Hoje já estive a selecionar as cadeiras e a fazer a inscrição. Esta notícia tira o maior peso que poderia descansar sobre os meus ombros, a incerteza. Sei exactamente o que vou fazer nos próximos dois anos, a construir mais um degrau para construir uma carreira. A janela é ampliada para uma porta, as poucas oportunidades passam para algumas. Porque uma licenciatura não chega e, dependendo da área a especialização é tudo, é a própria profissão. 

 

Passei tanto tempo a tentar procurar bolsas científicas ou laboratórios para trabalho voluntário, o tal trabalho escravo que envergonha a classe, mas obrigatório para os recém licenciados adquirirem currículo, tudo sem resposta ou quando tinha era negativa. A pressão era mais que muita, depois de meses em casa, começa um rol de perguntas, julgamentos e comentários, desde a vizinha de cinco casas à frente, a prima afastada dos avós, até a esteticista, todos querem saber do "e agora, o que vais fazer?". Como se a minha situação não bastasse por si só ainda tinha de ter pachorra para aturar quem me vinha buzinar aos ouvidos. Já me sentia inútil que chegasse por mim mesma, sem ter os outros a incutir-me o mesmo sentimento, uma pessoa em casa dá em doida. Agora é chapada de luva transparente em quem não acreditou no carácter temporário da minha situação. Tento sempre estar um passo mais à frente, se não continuasse a minha formação este ano já tinha delineado um plano B. 

 

Eu posso não conhecer a pessoa em causa, mas a minha avó vai buscar como exemplo toda e qualquer rapariga na faixa dos 20, num raio de 10km com um canudo na mão. É a filha da vizinha que tirou um curso numa universidade privada, sem empregabilidade foi tirar outro, desta vez enfermagem (a coisa também não está melhor), agora faz limpezas umas horas por dia. A prima da filha de outra vizinha tinha média para entrar em medicina, a família não podia pagar um curso tão longo, é licenciada em enfermagem, nunca exerceu, trabalha como caixa no continente. O irmão de uma amiga minha arranjava-lhe emprego, a rapariga não quer emigrar. Uma colega minha de secundário acabou na mesma altura que eu o curso de engenharia biomédica, quer continuar os estudos, mas para ganhar dinheiro extra também trabalha como caixa. 

 

Eu sei que nem todas as pessoas são iguais, mas inquieta-me que gente tão nova ponha em stand-by indefinidamente três ou quatro anos das suas vidas gastos em aprendizagem, que depois não põem em prática. Depois acomodam-se neste empregos sem qualificação requerida e o tempo corre e já vai longe, sendo impossível alcançar aquilo que lutamos para construir. Obviamente que não estou a criticar nenhum emprego, nos dias que corre é uma sorte ter uma fonte de rendimento, todos devemos lutar para ganhar a vida. Mas há falta de coragem para lutar e arriscar, o momento é agora, enquanto somos jovens, ainda com margem de manobra para errar. Também há famílias que querem os jovens sempre no ninho, não querem nem ouvir falar em emigrar, sofrem mais do que os próprios. Eu idealizo o que quero fazer para o resto da vida, que profissional me tornarei e vou dar tudo de mim para lá chegar, só não quero é estagnar, se tiver de ir para o mundo irei, com pesar de cá deixar os meus. Nada é definitivo, Portugal não dá valor a nada do que tem, incluindo os seus cientistas, ser alguém lá fora e voltar é possível e mais comum na ciência do que em qualquer outra área, é mais fácil aceder a bolsas de doutoramento no resto da Europa do que neste cantinho. Mas antes de pensar numa hipótese para já tão remota vou-me concentrar no agora e nesta conquista. 

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